Desde épocas remotas uma terrível dúvida assola todos
aqueles que se permitem pensar a respeito da condição humana ao nascer. O que
se esconde por entre as teias invisíveis do “milagre” da concepção? Todos nós
temos o direito de pensar sobre esta questão, quer nossas considerações sejam
fruto do senso comum quer sejam produto de estudos mais aprofundados. Todavia,
todos já nos deparamos com máximas do tipo: “O homem nasce bom; a sociedade o
corrompe”. Mas, façamos uma reflexão filosófica sobre esta assertiva. Se o
homem nasce bom, o conjunto de todos os homens seria ótimo. Ao conjunto de
todos os homens chamamos de sociedade. Logo, filosoficamente, conclui-se que se
a sociedade não é boa, o homem não nasce bom. Mas seria correto então afirmar
que o homem não nasce bom? Se tivermos uma visão maniqueísta, o contrário de
nascer bom seria nascer mau. Aqueles que têm esta visão encontram dificuldades
de afirmar que o homem não nasce bom, pois sendo assim nasceria mau.
Entretanto, se nos dispusermos a avançar mais um pouco na questão e
verificarmos as diversas hipóteses presentes deduziremos que não nascer bom,
não significa nascer mau.
Conceitos antropológicos afirmam que o homem é o animal
mais incompleto ao nascer. Todos os outros gêneros de animais apresentam na
grade genética códigos que vão sendo decodificados conforme se apresentam as
situações e necessidades. Desprovidos da capacidade única de raciocinar, contam
unicamente com este sistema de códigos a que chamamos instinto. No caso dos humanos,
o próprio instinto se desenvolve a partir da capacidade de raciocinar e esta
capacidade só é possível de se desenvolver em sociedade. Desta forma colocamos
em xeque a versão de casal único presente no mito da criação. A sociedade já
estaria presente, formada por outras espécies, quando da criação de nossa
espécie. Então parece que resolvemos o problema. O homem teria sido criado bom,
mas o convívio com outras espécies o teria tornado mau! Não acredito nesta conclusão, pois as
sociedades preexistentes eram compostas de escravos que serviam a seus
criadores. O homem foi criado à imagem e semelhança dos “deuses”, portanto com
status de realeza, muito embora isto não signifique por si somente, a
obrigatoriedade de ser bom.

Matéria e Espírito
Neste ponto da nossa reflexão chegamos a grande
diferenciação do homem em relação aos outros gêneros de animais. Lembremo-nos das teias invisíveis citadas no
início de nossa reflexão. Passaremos a chama-las de espírito. O homem não é
simplesmente matéria presente no universo, mas também espírito presente no
universo. Antes de continuarmos vamos fazer uma padronização de linguagem. Na
nossa época, fruto da tradição judaico-cristã, chamamos o bem de Deus e o mal
de demônio. Todavia, os povos da antiguidade chamavam a seus deuses de
demônios. Portanto, sem qualquer juízo de valor em razão da nomenclatura que
iremos adotar, chamaremos a parte espiritual do homem de demônios. O DNA humano
em sua estrutura invisível apresenta todos os demônios presentes no universo.
Estes demônios são a capacidade de raciocinar e de desenvolver determinados
dons que irão nos despertar para a vida profissional.
Portanto, tanto a capacidade de praticar o bem de forma
magnifica, como a capacidade de destruição através dos meios mais cruéis encontram-se
latente em todos os seres humanos. Durante séculos, as religiões buscaram
através do medo e da coação incitar os homens a domar seus demônios. A
Sociedade através do Estado, seja na Antiguidade ou nos dias atuais, pune
aqueles que não controlam seus demônios. A Psicanálise surgiu como ferramenta
para tentar ensinar o homem a domar seus demônios. Existem métodos de hipnose
que através da regressão levam o ser humano às câmaras escuras de seu interior
na busca por algo que lhe afetou o equilíbrio.
A Desconstrução do
homem natural
Uma profunda reflexão é condição necessária para que se
construa um novo homem baseado em valores universais, que extrapolem as
fronteiras do nosso planeta, conectando-se a Luz Criadora numa dimensão
invisível ao demais homens deste planeta que, sejam bons ou não, são todos
profanos pois ignoram a missão da raça humana. Assim como o próprio Jesus,
Lázaro seu amigo era um homem bom, porém teve de passar pelo processo de
reflexão para que conhecesse os segredos do Universo. As dimensões da vida
moderna porém não permitem que vivamos de forma contemplativa, até que nossos
demônios sejam atingidos pelo processo, não mais baseando nossas percepções em
falsas premissas.
Um novo homem está por ressurgir da escuridão de nossas reflexões,
constituindo-se pouco a pouco num novo ser humano até atingir a condição de um
visionário. O visionário é aquele homem que não se conforma com o óbvio, mas
estando 40 ou 50 anos a frente do seu tempo, projeta as conquistas e condições
do gênero humano, sem ser compreendido pela massa de crentes que se afoga no
lodo do conformismo e do conhecimento preconcebido e estático. Tenhamos coragem
de ousar em busca do desconhecido, rompendo as fronteiras do universo e
enxergando o invisível como algo palpável e real.
6.
Bibliografia
BÍBLIA DE ESTUDO DE GENEBRA. São Paulo e Barueri, Cultura Cristã e
Sociedade Bíblica do Brasil, 1999.
DAVIS, John D. Dicionário da Bíblia. São
Paulo, Hagnos, 2002.
JOSEFO, Flávio. História dos Hebreus. Rio
de Janeiro, CPAD,1990.
LÉVI-STRAUSS, CLAUDE. As
Estruturas Elementares do Parentesco. Ed. Vozes.